Enquanto espero a chuva passar aproveito para atualizar o blog, que faz algum tempo anda um pouco abandonado. Explico que a notícia sobre o Keith Richards é na verdade o meu tributo ao grande guru Rock. Numa semana em que os boatos sobre o fim dos Rolling Stones circularam, acho bacana dizer que o bom e velho Keith continua na luta. Seria realmente uma tolice encerrar uma banda de 45 anos quando seus integrantes ainda estão suficientemente novos para subir no palco, pegar uma guitarra, estourar sucessos e provocar escândalos.
Mas não é ao som dos Rolling Stones que leio as correspondências da Simone de Beauvoir. Desde domingo passo algum tempo em frenético diálogo com ela ao som de Boris Vian, Serge Gainsbourg e Jacques Brel. A leitura das cartas que ela trocou com Nelson Algren entre 1947-64 é realmente proveitosa. Já colhi dados sobre o processo de criação de vários livros seus como ‘Todos os Homens são Mortais’, ‘Por uma Moral da Ambiguidade’, ‘L’Amérique au jour le jour’, ‘O Segundo Sexo’, etc. Outra coisa que me deixou feliz com a leitura é a descrição minunciosa que o velho Castor faz do seu trabalho na Les Temps Modernes ao lado de Sartre, Camus, Merlau-Ponty e outros intelectuais da sua época.

Deixo vocês com parte de uma carta que muito me agradou.
” (…) Bem, ontem, quando eu trabalhava no Deux Magots, Koester veio me encontrar; ele como você sabe, é autor de Darkness at Noon e de Spanish Testament (este último excelente). Não me lembro o que você achou dele como escritor, mas creio ter lhe contado a estranha noite que passamos com ele, Sartre, Camus e eu: bêbados, chorávamos por nossa amizade e nossas divergências poíticas; foi muito estranho . Gosto muito dele, bem como de sua bela e gentil mulher. Fomos juntos a uma exposição de Monet, Manet, Renoir e Lautrec, os mesmos pintores que vimos juntos no museu de Chicago e isso apertou o meu coração. Mas não lhe contei que, no ano passado, dormi uma vez com ele, experiência curiosa porque, embora atraídos um pelo outro, éramos totalmente opostos “por divergências políticas”. Ele achava que eu não era suficientemente anticomunista. Essas oposições não me preocupavam absolutamente, mas a ele sim, e elas acabaram por deixá-lo agressivo. Ora, eu odeio a agressividade, principalmente quando misturada a assuntos sexuais, tanto que não houve uma segunda vez. Ontem pensei o seguinte: (…)” nada de importante, pessoalidades “Voltando ao Deux Magots, encontrei Jean Genet, o pederasta ladrão, que foi muito amável e muito engraçado, mas ue me impediu de trabalhar. Depois, foram outros conhecidos; em suma, perdi a manhã. Decidi, de agora em diante, permanecer de manhã em meu quarto. Neste momento, bebo chá e como pão e geléia e vou trabalhar em casa, é melhor. Fui com Sartre encontrar um sujeito da rádio. Teremos meia hora semananl para falar de temas sociais e políticosa partir do próximo sábado. (…) Não só os socialistas, mas agora também os anarco-sindicalistas nos pedem que os ajude a formular uma idelogia. Estes últimos são muito mais interessantes, porque são jovens e audaciosos. E como sabem odiar! Ai! Todas essas oportunidades de agir concretamente, eficazmente, acontecem em um momento em que não há mais nada a esperar, com todo mundo acreditando que haverá guerra dentro de dois anos. O que você acha disso? Paris tornou-se encantadora. Nós nos sentamos no terraço de um café no boulevard Montparnasse e discutimos Hegel, que estudamos neste momento e que é um filósofo muito difícil. Durante todo o dia, trabalhei bastante, é a única coisa que me ajuda concretamente. Depois de ter passado na Temps Modernes para responder às cartas, pus-me a trabalhar em meu livro. O número da Politics onde apareceram artigos meus, de Sartre e de Merlau-Ponty é o de julho-agosto - leia-o. (…)”